terça-feira, 17 de maio de 2011

Bagão Felix diz tudo sobre Sócrates

A especiaria da mentira:

"Quando eu ouço dirigentes da oposição dizerem que o FMI virá mais tarde ou mais cedo, que é inevitável a ajuda externa ao nosso país, eu quero dizer-vos francamente que há limites para tudo". "Ou eu ou o FMI". "Entre vir ou não o FMI há dez milhões de portugueses que sofreriam". "Ainda vão ter saudades do PEC IV". "Portugal não precisará nem de ajuda externa, nem de nada mais que não seja confiança no povo português e no nosso país". "Um programa de ajuda externa tem consequências profundamente negativas para as pessoas , para as famílias e também para as empresas". Assim se exprimia, ufano, o primeiro ministro umas horas, um dia, dois dias, alguns dias antes de pedir assistência externa.

"Este acordo pode ser o ponto de partida para a recuperação que o país precisa". "O Governo conseguiu um bom acordo. Este é um acordo que defende Portugal." "O meu primeiro dever é tranquilizar os portugueses". "O sentimento de confiança deve prevalecer sobre o negativismo e sobre o pessimismo, atitudes que só conduzem à descrença, à paralisia..." Assim se exprimiu, cameleonicamente (e, desta vez, sem o brado nervoso do pavão de São Bento), o primeiro ministro, ao apresentar, sob a forma de publicidade enganosa, o que (não) consta do Memorando de Entendimento com a 'troika'. Só lhe faltou o remate cultural: "porreiro, pá!" Mais palavras para quê?

Mesmo assim há quem teime e negligenciar a distância entre a verdade, a fantasia e a mentira. Acham até que a mentira é uma nova especiaria comportamental. Vestindo-se ou travestindo-se de muitas e sofisticadas formas: meia-verdade, omissão, exagero, rumor, incoerência, quimera, ilusão, insinuação, manipulação.

A verdade existe por si. A mentira subsiste através dos seus autores. A verdade dá trabalho, e exige a consonância da sua essência com o carácter e a consciência. A mentira implica a imaginação do seu fabrico e é favorecida pela sofreguidão das notícias, que rapidamente a fazem submergir nas trevas sem memória. E sabemos que uma porta meio aberta é uma porta meio fechada, mas uma meia mentira jamais será uma meia verdade.

O que assistimos nos dias que precederam o anúncio do acordo - em que parte dos media colaboraram, anunciando medidas mais gravosas, para depois se assistir ao seu amaciamento . é paradigmático da tristeza, leviandade e marketing oco em que certo modo de fazer política de Estado se vem transformando.

Nas eleições, o que vai estar em causa é o escrutínio da autenticidade, da verdade, da respeitabilidade, da coerência, da dignidade, da integridade. A situação por que passamos não admite jogos florais. Acabou o tempo de se usar a magia de dividir a verdade e multiplicar a mentira.

A chave da verdade está nos eleitores. Mas atenção: nestas alturas, lembro-me de forma irónica frase do escritor norte-americano Mark Twain: "Uma das notáveis diferenças entre o gato e a mentira é o gato ter apenas nove vidas."


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Bom texto, mas que retrata um pouco o eleitor português que tem memória curta. Não se percebe estas últimas sondagens...

2 comentários:

Common disse...

Tu que estudas economia e lês mais artigos que eu sobre isso, provavelmente deves ter lido o artigo do especialista americano que disse que o nosso país não precisava do FMI( que não estava-mos perto da situação que a Irlanda ou Grécia estiveram)(que até estava-mos com boas políticas para combater o défice)( e que isto era um alerta para os restantes países) e que fomos forçados pelas agências de rating.. a oposição, como é óbvio aproveitou para deitar o governo abaixo.
Isso que publicaste é muito bonito e verdade, mas vamos a ver a oposição e tens as mentiras ditas de outra maneira. Para te ser sincero não sei qual o pior, se um gajo que já provou ser mau (Sócrates) ou um que se mostra muito mau ( Passos coelho)(eu não queria nenhum deles)... uma coisa é certa, estamos na situação que estamos pelas politicas praticadas pelo partido que hoje é a oposição. Os outros aumentaram o fosso, é verdade (condeno-os tanto como tu) mas não vejo ninguém a condenar as pessoas que abriram o fosso e estouraram o $ todo (até os vejo a receber honras LOL)
Por isso não vou dizer que algum deles devia ganhar, nem para criarem grupos de "votem neste", Simplesmente digo:
1- "VIVA O VOTO EM BRANCO"
2- Estou farto de "dinossauros da politica"
3- Somos um país com mentalidade de 3º mundo ( já nem digo o melhor de África porque começo a achar que há melhores)
4- Em jeito de brincadeira, o Pinto da Costa era mais capaz ( e votava nele) do que a maior parte daqueles abutres

C ya aniki *

johny walker disse...

Os artigos valem o que valem e esse especialista americano também diz meias verdades. Se calhar é primo do Sócrates ou ambiciona ser politico em Portugal.

É verdade que foram as agências rating que forçaram esta situação, a nossa crise é diferente da Irlandesa, da Islandesa e da Grega, pois nesses países o sistema bancário é que provocou a crise. Mas atenção a culpa das agências rating não morre solteira.

Portugal nos últimos 10/15 anos passou de uma dívida pública menor que 10% do PIB para actualmente ser superior ao valor do PIB e este tem vindo a crescer. O que demonstra isto às agências que nos lixaram? Que Portugal tem um problema estrutural económico e que esse problema fará com que seja muito difícil pagar a dívida que contraímos ao longo dos últimos anos. Logo consequentemente baixam o rating a Portugal.

Que se sucede a seguir? Por muito bem que os bancos portugueses estejam, o rating deles nunca pode ser superior ao rating do país soberano onde estão sediados, logo o rating dos nossos bancos também desceu e aí é que a porca torce o rabo, pois por muito bem que os nossos bancos estejam eles necessitam de financiamento para continuar com a sua actividade e com o rating tão baixo, torna-se extremamente caro financiar-se e sendo assim os bancos que estavam bem, afinal já não estavam.

Reacção dos banqueiros? Fechar a torneira ao Estado e forçar a entrada do FMI.

Logo por esta óptica era inevitável a entrada do FMI.